Poucas coisas ferem mais a alma do brasileiro do que “permanecer sentado até a parada total da aeronave e apagarem-se os sinais luminosos de apertar cintos”. Da próxima vez que viajar de avião, repare. Mal acabou aquele burburinho que segue à aterrissagem - aquele farfalhar de vozes e risadas que não quer dizer outra coisa senão “ufa, sobrevivemos!” - e os passageiros já começam a se mexer, aflitos, sobre seus assentos flutuantes. Trata-se de um jogo silencioso, do qual todos os viajantes participam, cuja regra é: quem ainda estiver sentado quando for permitido levantar-se é bicha!
Veja bem, não trago o tema à baila por achar que esses afobadinhos causem grande perigo à sociedade ou ameacem nossas instituições. O máximo que pode acontecer é o avião dar um solavanco, eles se desequilibrarem, quebrarem umas costelas ou passarem dessa para melhor - o que seria problema unicamente deles. Falo sobre o assunto pois acho que, destrinchando-o, podemos esclarecer outros comportamentos de nosso povo – assim como uma descoberta num gene das drosófilas pode acabar trazendo grandes avanços, digamos, ao cultivo de repolhos.
Observando o bigodudo ilegalmente de pé, ali, no meio do corredor, ou o careca clandestinamente curvado sob o compartimento de bagagens, entendemos melhor a confusão do brasileiro no que tange à observância das regras. Como herança da escravidão, nós nunca entendemos que a lei é um código comum, destinado a organizar minimamente o fuzuê, de forma que possamos caminhar com alguma segurança em direção à felicidade. Vemos a lei como a demonstração de poder de uma pessoa sobre a outra. E o passageiro insubmisso não aceita receber ordens do comissário de bordo, um sujeito que, pouco antes, estava servindo-lhe suco e amendoim – e que, não menos importante, costuma ser jovem e, digamos, bem apessoado. Mal ouve o anúncio de permanecer sentado, o insurgente pensa “quem ele acha que é?!”, então levanta-se e executa, em ato, a máxima nacional que Roberto da Matta formulou tão bem: “você sabe com quem está falando?!”. Caso a voz no sistema de som seja de uma aeromoça, a hipótese continua válida. Afinal, vou receber ordens de uma mulher? Eu? Na frente de todo mundo?!
Pobre do brasileiro, sua virilidade não resiste a uma ponte aérea! Diante de tais fatos, sugiro que o governo crie o Ministério da Psicanálise, destinado a combater as causas de tamanha insegurança em nossa pátria tão despatriada. E sugiro aos comissários e aeromoças que sejam mais agressivos na repressão: “Senta, ô Bigode!!” e “Bota o cinto, careca!” soando no sistema de som podem ser tão efetivos quando os ensinamentos de Freud, Jung ou Lacan na diminuição dos sintomas.
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quinta-feira, 10 de setembro de 2009
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
Rakel
Então...
Como cantava Elis Regina, “as aparências enganam aos que odeiam aos que amam...”, foi meio difícil quando eu vi um post que era muito parecido com outro que já havia visto. Também não sou esse santo que aparento ser, nem quero ser um herói, até porque poderes não tenho. Advogado? Acho que não! Tentei fazer justiça com as minhas próprias mãos e quase, digo quase ganhei uma arquiinimiga, mas como tudo cooperam para o bem, os mals entendidos foram resolvidos.
Às vezes copio também um post e algumas fotos de um blog, acho muito criativo e pronto lá vou eu também, copiando e postando. Acho que essa batalha que travamos durante esses dias me serviu para te enxergar melhor, não digo isso como o lobo mal da chapeuzinho vermelho, nem de longe quero parecer.
Mas um nome que eu aprendi a ler e entender que sim realmente o significado dele, é absolutamente real. Uma menina que nem sei onde vive, aqui no Rio ou em São Paulo, no Brasil ou na Europa. Essa menina mansa, que com um jeito meigo coloca dois post para um menino que ela mesma nunca viu. Ou quem sabe já nos conhecíamos e nem sabemos?
Não sei, só sei que ontem ao ler o teu post eu percebi que você além de uma menina inteligente me aparentou ser uma mulher de fibra e guerreira, uma menina gentil e sonhadora, uma Rakel mansa e compreensiva. Parabéns, e saiba que todos os que te cercam devem se sentir completos abençoados por ter você ao vosso lado.
1% de chance, representa 99% de esperança. O Mundo Real e as coisas são apenas reflexo de uma realidade perfeita contida no Mundo das Idéias!
P.S.: Espero que estas palavras não entre por um ouvido e saiam por outro, mas estarei sempre aqui para poder responder qualquer duvida e auxiliar no que precisar.
Como cantava Elis Regina, “as aparências enganam aos que odeiam aos que amam...”, foi meio difícil quando eu vi um post que era muito parecido com outro que já havia visto. Também não sou esse santo que aparento ser, nem quero ser um herói, até porque poderes não tenho. Advogado? Acho que não! Tentei fazer justiça com as minhas próprias mãos e quase, digo quase ganhei uma arquiinimiga, mas como tudo cooperam para o bem, os mals entendidos foram resolvidos.
Às vezes copio também um post e algumas fotos de um blog, acho muito criativo e pronto lá vou eu também, copiando e postando. Acho que essa batalha que travamos durante esses dias me serviu para te enxergar melhor, não digo isso como o lobo mal da chapeuzinho vermelho, nem de longe quero parecer.
Mas um nome que eu aprendi a ler e entender que sim realmente o significado dele, é absolutamente real. Uma menina que nem sei onde vive, aqui no Rio ou em São Paulo, no Brasil ou na Europa. Essa menina mansa, que com um jeito meigo coloca dois post para um menino que ela mesma nunca viu. Ou quem sabe já nos conhecíamos e nem sabemos?
Não sei, só sei que ontem ao ler o teu post eu percebi que você além de uma menina inteligente me aparentou ser uma mulher de fibra e guerreira, uma menina gentil e sonhadora, uma Rakel mansa e compreensiva. Parabéns, e saiba que todos os que te cercam devem se sentir completos abençoados por ter você ao vosso lado.
1% de chance, representa 99% de esperança. O Mundo Real e as coisas são apenas reflexo de uma realidade perfeita contida no Mundo das Idéias!
P.S.: Espero que estas palavras não entre por um ouvido e saiam por outro, mas estarei sempre aqui para poder responder qualquer duvida e auxiliar no que precisar.
segunda-feira, 20 de julho de 2009
A ciência nasceu dos homens
Se a ciência busca a verdade, o mesmo não se pode dizer da arte. Como Luc Ferry explica lindamente em “Aprender a viver – filosofia para os novos tempos”, o artista é aquele que “inventa mundos novos sem necessidade de mostrar a legitimidade do que propõe, menos ainda de prová-la pela refutação de outras obras que precederam a sua”. Assim, não faz muito sentido falar que um Picasso, por exemplo, é mais “verdadeiro” que um Degas. Mas já faz algum sentido dizer que as ciências naturais de hoje são mais “verdadeiras” do que as do século 17, digamos, se você considerar que a ciência de hoje entende melhor como o corpo humano funciona, consegue prevenir um maior número de doenças, etc – avanços tecidos em meio a teorias, testes, refutações, provas.
Na filosofia – que não é considerada uma ciência, pelo menos para a maioria dos autores, penso eu –, pensadores como Nietzsche e Husserl questionaram essa necessidade de demonstração para se alcançar uma verdade – uma característica tão forte do conhecimento científico. Claro que também não falta a vertente dos filósofos que pensam na verdade por correspondência ao objeto, correspondência esta que pode ser demonstrada, provada, testada, medida, sistematizada, comparada, transformada em números, padrões, leis etc. Podemos encaixar aí vários filósofos da ciência, como Popper, para citar um dos mais importantes.
Pois bem. Uma questão interessante que se coloca, sobretudo em relação às chamadas “ciências humanas”, é: até que ponto essas ciências ganham em se separar abruptamente das artes? E até que ponto ganhamos ao encaixar o ser humano no conhecimento científico?
As ditas ciências humanas, como antropologia ou ciências sociais, são bem mais novas do que as ditas ciências naturais – podemos dizer que elas ganharam status de ciência a partir do século 19. Em termos de metodologia e pretensões, elas começaram seguindo um caminho parecido com o das ciências naturais: objetividade, leis universais, construção de um objeto de estudo verificável. Ao longo do (curto) tempo, com contribuições do estruturalismo, do marxismo e da fenomenologia, como explica Marilena Chauí em “Convite à filosofia”, as ciências humanas foram desenvolvendo uma metodologia diferenciada e leis próprias, sem perder o fato de serem “tratadas cientificamente”. Para a autora, ao menos de acordo com essa obra, os obstáculos epistemológicos das ciências humanas foram ultrapassados, ou seja, o humano é objeto sim de conhecimento científico. O pensamento da filósofa não é unânime, ainda mais em tempos de pós-modernidade, vale lembrar.
Voltando às perguntas sobre ganhar e perder: se o ser humano é estudado cientificamente, não só no que diz respeito ao seu organismo, mas ao que diz respeito à sua psique, à sua organização social, à sua organização econômica, à sua história, etc, e se esse estudo tem, como qualquer estudo científico, pretensão à verdade, ótimo. Mas, se é para que o ser humano seja objetificado a ponto de darmos muito mais valor ao que um cientista social diz do que um poeta, um escritor, um ator, um pintor, um músico e uma pessoa comum... não seria uma perda imensurável?
Como diz Rubem Alves em “A filosofia da ciência”, o cientista ganhou caráter de mito. E todo mito é perigoso, porque inibe o pensamento. Como se os cientistas pensassem melhor do que as outras pessoas.
Estudemos os homens cientificamente, sem dúvida, mas não reduzamos os homens à ciência.
Não nos esqueçamos de que o ser humano, antes de ser objeto científico, antes mesmo da criação do termo “ser humano”, já existia. E que a humanidade é muito mais ampla do que a ciência, até porque a ciência nasceu dos homens...
Na filosofia – que não é considerada uma ciência, pelo menos para a maioria dos autores, penso eu –, pensadores como Nietzsche e Husserl questionaram essa necessidade de demonstração para se alcançar uma verdade – uma característica tão forte do conhecimento científico. Claro que também não falta a vertente dos filósofos que pensam na verdade por correspondência ao objeto, correspondência esta que pode ser demonstrada, provada, testada, medida, sistematizada, comparada, transformada em números, padrões, leis etc. Podemos encaixar aí vários filósofos da ciência, como Popper, para citar um dos mais importantes.
Pois bem. Uma questão interessante que se coloca, sobretudo em relação às chamadas “ciências humanas”, é: até que ponto essas ciências ganham em se separar abruptamente das artes? E até que ponto ganhamos ao encaixar o ser humano no conhecimento científico?
As ditas ciências humanas, como antropologia ou ciências sociais, são bem mais novas do que as ditas ciências naturais – podemos dizer que elas ganharam status de ciência a partir do século 19. Em termos de metodologia e pretensões, elas começaram seguindo um caminho parecido com o das ciências naturais: objetividade, leis universais, construção de um objeto de estudo verificável. Ao longo do (curto) tempo, com contribuições do estruturalismo, do marxismo e da fenomenologia, como explica Marilena Chauí em “Convite à filosofia”, as ciências humanas foram desenvolvendo uma metodologia diferenciada e leis próprias, sem perder o fato de serem “tratadas cientificamente”. Para a autora, ao menos de acordo com essa obra, os obstáculos epistemológicos das ciências humanas foram ultrapassados, ou seja, o humano é objeto sim de conhecimento científico. O pensamento da filósofa não é unânime, ainda mais em tempos de pós-modernidade, vale lembrar.
Voltando às perguntas sobre ganhar e perder: se o ser humano é estudado cientificamente, não só no que diz respeito ao seu organismo, mas ao que diz respeito à sua psique, à sua organização social, à sua organização econômica, à sua história, etc, e se esse estudo tem, como qualquer estudo científico, pretensão à verdade, ótimo. Mas, se é para que o ser humano seja objetificado a ponto de darmos muito mais valor ao que um cientista social diz do que um poeta, um escritor, um ator, um pintor, um músico e uma pessoa comum... não seria uma perda imensurável?
Como diz Rubem Alves em “A filosofia da ciência”, o cientista ganhou caráter de mito. E todo mito é perigoso, porque inibe o pensamento. Como se os cientistas pensassem melhor do que as outras pessoas.
Estudemos os homens cientificamente, sem dúvida, mas não reduzamos os homens à ciência.
Não nos esqueçamos de que o ser humano, antes de ser objeto científico, antes mesmo da criação do termo “ser humano”, já existia. E que a humanidade é muito mais ampla do que a ciência, até porque a ciência nasceu dos homens...
quinta-feira, 30 de abril de 2009
Universalismo X relativismo
Alguns posts atrás, escrevi sobre o velho debate entre cultura e biologia, e citei um artigo em que Dráuzio Varella comenta como essa dicotomia é ultrapassada. Neste post de hoje, gostaria de falar brevemente sobre outra antiga e importante discussão nas ciências humanas e na filosofia: relativismo versus universalismo.
Há graus de relativismo e diferenças entre seus adeptos, mas, de modo geral, ele consiste num olhar nas diferenças culturais entre os povos. Cada sociedade compartilha de seu próprio e singular universo simbólico; cada povo não apenas cultiva determinados costumes, como vê o mundo com olhos já mergulhados nesses costumes. E, por mais que tentemos nos colocar na pele do outro, nunca conseguiremos agir como se tivéssemos nascido naquela cultura. Nosso olhar já está imerso no nosso ponto de vista, na maneira como vemos as coisas.
Os autores Thomas Eriksen e Finn Nielsen comentam, em “História da Antropologia” (Petrópolis: Vozes, 2007), citando o livro “The Idea of a Social Science and Its Relation to Philosophy”, do filósofo Peter Winch: “Winch sustenta no livro que não existe uma posição privilegiada, a partir da qual se possa comparar e analisar outras culturas. Seria impossível estabelecer conhecimento objetivo, ‘testável’ sobre fenômenos culturais, uma vez que o significado desses fenômenos é definido pelo universo cultural de que eles fazem parte”.
Temos aí um gancho para os universalistas. Pois eles, ao contrário, querem justamente encontrar essa posição privilegiada, não se baseando no que as culturas têm em particular, mas no que o ser humano tem em comum. E o que o ser humano teria em comum? O uso da razão? Do bom senso? A auto-evidência de direitos como à vida, à não-violência, à igualdade? Ou esses direitos – fundados no Iluminismo, defendidos pela ONU – são, também eles, culturais? Não há como fugir da cultura? Não há como falar em direitos iguais para homens diferentes?
Cito aqui Robert Sokolowski, em “Introdução à fenomenologia” (Sâo Paulo: Edições Loyola, 2004), num trecho não propriamente sobre essa discussão, mas sobre uma característica que os seres humanos teriam em comum, de acordo com a fenomenologia: a racionalidade e, com ela, a capacidade de ver a verdade das coisas. “A luz da razão abre o espaço das razões, o reino dos fins. (...). Nossa fala não é apenas um tagarelar entre nós mesmos; é também, se escaparmos da névoa da vaguidade, a revelação das coisas, que vêm à luz naquilo que dizemos”.
Podemos mesmo revelar as coisas? Ou estamos fadados a viver no relativismo cultural? Ou, mais ainda, há um meio termo dentro dessa dicotomia?
Há graus de relativismo e diferenças entre seus adeptos, mas, de modo geral, ele consiste num olhar nas diferenças culturais entre os povos. Cada sociedade compartilha de seu próprio e singular universo simbólico; cada povo não apenas cultiva determinados costumes, como vê o mundo com olhos já mergulhados nesses costumes. E, por mais que tentemos nos colocar na pele do outro, nunca conseguiremos agir como se tivéssemos nascido naquela cultura. Nosso olhar já está imerso no nosso ponto de vista, na maneira como vemos as coisas.
Os autores Thomas Eriksen e Finn Nielsen comentam, em “História da Antropologia” (Petrópolis: Vozes, 2007), citando o livro “The Idea of a Social Science and Its Relation to Philosophy”, do filósofo Peter Winch: “Winch sustenta no livro que não existe uma posição privilegiada, a partir da qual se possa comparar e analisar outras culturas. Seria impossível estabelecer conhecimento objetivo, ‘testável’ sobre fenômenos culturais, uma vez que o significado desses fenômenos é definido pelo universo cultural de que eles fazem parte”.
Temos aí um gancho para os universalistas. Pois eles, ao contrário, querem justamente encontrar essa posição privilegiada, não se baseando no que as culturas têm em particular, mas no que o ser humano tem em comum. E o que o ser humano teria em comum? O uso da razão? Do bom senso? A auto-evidência de direitos como à vida, à não-violência, à igualdade? Ou esses direitos – fundados no Iluminismo, defendidos pela ONU – são, também eles, culturais? Não há como fugir da cultura? Não há como falar em direitos iguais para homens diferentes?
Cito aqui Robert Sokolowski, em “Introdução à fenomenologia” (Sâo Paulo: Edições Loyola, 2004), num trecho não propriamente sobre essa discussão, mas sobre uma característica que os seres humanos teriam em comum, de acordo com a fenomenologia: a racionalidade e, com ela, a capacidade de ver a verdade das coisas. “A luz da razão abre o espaço das razões, o reino dos fins. (...). Nossa fala não é apenas um tagarelar entre nós mesmos; é também, se escaparmos da névoa da vaguidade, a revelação das coisas, que vêm à luz naquilo que dizemos”.
Podemos mesmo revelar as coisas? Ou estamos fadados a viver no relativismo cultural? Ou, mais ainda, há um meio termo dentro dessa dicotomia?
segunda-feira, 6 de abril de 2009
O ausente em nossas vidas
Saudade. Esperança. Rancor. Medo. O que esses sentimentos têm em comum?
Todos dizem respeito não a coisas que estão presentes, mas ao ausente. Sinto saudade de alguém que está fora do meu campo de visão, mas dentro do meu peito. Tenho esperança de que algo ocorra. Tenho rancor de algo que já foi. Temo o que ainda não ocorreu.
Não nos relacionamos apenas com o presente; não é apenas o que está diante dos nossos olhos que tem o poder de nos afetar. Somos seres que vivem conscientemente: temos um passado, criamos expectativas em relação ao futuro e enfeitamos nosso presente com sentimentos e sensações que não se dirigem ao imediatamente palpável. Procuramos o livro que não está aqui, esperamos ansiosos a sessão de cinema que ainda não começou, pensamos na consulta que ainda não aconteceu, tentamos escrever um texto que ainda não existe, lembramos do que comemos no dia anterior, desejamos estar em outro espaço e outro tempo. São tempos vazios, espaços vazios: não estão conosco agora.
A importância do vazio e nossa relação com o ausente são assuntos fundamentais na filosofia de Husserl (1859-1939), o pai da fenomenologia. Fenomenologia é a doutrina filosófica que estuda o modo como as coisas aparecem para nós e como nos relacionamos com essas coisas. O contato da nossa consciência com o mundo – do qual ela não pode existir separadamente – é um assunto que aparece em Descartes, em Kant e tantos outros filósofos. Mas a fenomenologia traz nova luz a essas questões. Por exemplo, a diferenciação entre o presente e o ausente. E a importância do ausente, que, como você pode ver, é bem presente em nossas vidas.
Para quem se interessar sobre o tema: Investigações Lógicas, Husserl. São Paulo: Coleção Os Pensadores, várias edições. E Introdução à Fenomenologia, Sokolowski. São Paulo: Edições Loyola, 2004.
Todos dizem respeito não a coisas que estão presentes, mas ao ausente. Sinto saudade de alguém que está fora do meu campo de visão, mas dentro do meu peito. Tenho esperança de que algo ocorra. Tenho rancor de algo que já foi. Temo o que ainda não ocorreu.
Não nos relacionamos apenas com o presente; não é apenas o que está diante dos nossos olhos que tem o poder de nos afetar. Somos seres que vivem conscientemente: temos um passado, criamos expectativas em relação ao futuro e enfeitamos nosso presente com sentimentos e sensações que não se dirigem ao imediatamente palpável. Procuramos o livro que não está aqui, esperamos ansiosos a sessão de cinema que ainda não começou, pensamos na consulta que ainda não aconteceu, tentamos escrever um texto que ainda não existe, lembramos do que comemos no dia anterior, desejamos estar em outro espaço e outro tempo. São tempos vazios, espaços vazios: não estão conosco agora.
A importância do vazio e nossa relação com o ausente são assuntos fundamentais na filosofia de Husserl (1859-1939), o pai da fenomenologia. Fenomenologia é a doutrina filosófica que estuda o modo como as coisas aparecem para nós e como nos relacionamos com essas coisas. O contato da nossa consciência com o mundo – do qual ela não pode existir separadamente – é um assunto que aparece em Descartes, em Kant e tantos outros filósofos. Mas a fenomenologia traz nova luz a essas questões. Por exemplo, a diferenciação entre o presente e o ausente. E a importância do ausente, que, como você pode ver, é bem presente em nossas vidas.
Para quem se interessar sobre o tema: Investigações Lógicas, Husserl. São Paulo: Coleção Os Pensadores, várias edições. E Introdução à Fenomenologia, Sokolowski. São Paulo: Edições Loyola, 2004.
terça-feira, 24 de março de 2009
sábado, 7 de março de 2009
Filosofia no céu ou no chão?
Muitas pessoas perguntam o que é ou para que serve a filosofia. Não existe apenas uma definição dessa disciplina ou área de conhecimento, mas várias – até porque a filosofia tem 26 séculos de existência e mudou bastante da Grécia Antiga para cá. O que eu gostaria de apresentar, aqui, são as posições de dois filósofos: o alemão Leo Strauss (1899-1973) e o brasileiro Cruz Costa (1904-1978).
Em De La Tyrannie, Strauss diz que cabe à filosofia mais levantar perguntas do que oferecer respostas. A filosofia não precisa tomar partido, como a política. Sua função é mostrar os problemas, de modo que as pessoas tenham uma real consciência deles. “Na medida em que permanecemos não no plano da sabedoria, mas apenas na busca da sabedoria, constatamos que a evidência de todas as soluções é necessariamente menor do que a evidência dos problemas”.
Em Panorama da História da Filosofia no Brasil, Cruz Costa afirma: “Para nós, da América Latina, a reflexão filosófica não termina na contemplação do mundo. Vai além. Ela exige a sua transformação (...). O valor dos princípios filosóficos não consiste na sua simples formulação abstrata, mas na capacidade que estes princípios possuem de permitir analisar os domínios concretos da realidade.”
Enquanto Strauss atenta para o papel questionador da filosofia, Cruz Costa chama a atenção para o compromisso que ela tem com a realidade. Escolhi essas duas visões porque acho que, de certa forma, elas podem se complementar. A realidade, o que quer que seja ela, é a matéria bruta sobre a qual a filosofia se debruça para formular indagações que, mesmo que não sejam respondidas ou mesmo que recebam várias respostas – da ciência, da religião, da lingüística... – são fundamentais para se conhecer o mundo. E conhecer o mundo é, por sua vez, fundamental para deixá-lo um pouco melhor. Ou estou sendo muito otimista?
Em De La Tyrannie, Strauss diz que cabe à filosofia mais levantar perguntas do que oferecer respostas. A filosofia não precisa tomar partido, como a política. Sua função é mostrar os problemas, de modo que as pessoas tenham uma real consciência deles. “Na medida em que permanecemos não no plano da sabedoria, mas apenas na busca da sabedoria, constatamos que a evidência de todas as soluções é necessariamente menor do que a evidência dos problemas”.
Em Panorama da História da Filosofia no Brasil, Cruz Costa afirma: “Para nós, da América Latina, a reflexão filosófica não termina na contemplação do mundo. Vai além. Ela exige a sua transformação (...). O valor dos princípios filosóficos não consiste na sua simples formulação abstrata, mas na capacidade que estes princípios possuem de permitir analisar os domínios concretos da realidade.”
Enquanto Strauss atenta para o papel questionador da filosofia, Cruz Costa chama a atenção para o compromisso que ela tem com a realidade. Escolhi essas duas visões porque acho que, de certa forma, elas podem se complementar. A realidade, o que quer que seja ela, é a matéria bruta sobre a qual a filosofia se debruça para formular indagações que, mesmo que não sejam respondidas ou mesmo que recebam várias respostas – da ciência, da religião, da lingüística... – são fundamentais para se conhecer o mundo. E conhecer o mundo é, por sua vez, fundamental para deixá-lo um pouco melhor. Ou estou sendo muito otimista?
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
Razão e sensibilidade
O homem é um animal racional e emocional, e não é difícil perceber isso. Se dermos o nome de razão àquele nosso lado sistemático, que busca orientar nossos pensamentos e controlar nossas emoções, encontrando as melhores maneiras de lidar com as mais diversas situações, e de sensibilidade a instância que adora esquecer essa ponderação toda e agir com impulso e intensidade... fica claro como essas duas esferas são bem familiares a nós. No nosso dia-a-dia, nos acostumamos a usar expressões como “Fulano perdeu a razão” ou “Estou ouvindo meu coração”. Dizemos que há pessoas mais racionais, e outras mais emocionais, ou passionais.
Na filosofia e na literatura, há uma infinidade de autores que escrevem sobre esse tema. Platão tem uma alegoria interessante para a maneira como devemos lidar com nosso interior. Imagine uma carruagem. Os cavalos representam nossas emoções. O cocheiro é a razão. E as rédeas com as quais o cocheiro segura os cavalos representam a vontade. Ou seja: se usarem sua vontade, as pessoas conseguem fazer com que a razão controle os sentimentos, as emoções e, com isso, nossos desejos, nossos ímpetos – desejos e ímpetos não querem saber de regras, só querem ser realizados... E, então, cabe à razão botar ordem na casa.
Já Balzac oferece um lugar mais honroso às emoções, na voz do seu narrador de A Mulher de 30: “O raciocínio é limitado por natureza, o sentimento é infinito. Raciocinar onde é preciso sentir, isso é próprio das almas medíocres.”
E você, o que pensa do duelo entre razão e emoção? Ou não acredita que haja um duelo?
Na filosofia e na literatura, há uma infinidade de autores que escrevem sobre esse tema. Platão tem uma alegoria interessante para a maneira como devemos lidar com nosso interior. Imagine uma carruagem. Os cavalos representam nossas emoções. O cocheiro é a razão. E as rédeas com as quais o cocheiro segura os cavalos representam a vontade. Ou seja: se usarem sua vontade, as pessoas conseguem fazer com que a razão controle os sentimentos, as emoções e, com isso, nossos desejos, nossos ímpetos – desejos e ímpetos não querem saber de regras, só querem ser realizados... E, então, cabe à razão botar ordem na casa.
Já Balzac oferece um lugar mais honroso às emoções, na voz do seu narrador de A Mulher de 30: “O raciocínio é limitado por natureza, o sentimento é infinito. Raciocinar onde é preciso sentir, isso é próprio das almas medíocres.”
E você, o que pensa do duelo entre razão e emoção? Ou não acredita que haja um duelo?
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Mais sobre cultura e biologia
Guardei um artigo que Drauzio Varella escreveu para a Folha de São Paulo em 03/01/09, na Ilustrada. O título é “Genética e comportamento social” e trata do mesmo tema abordado no post anterior – biologicamente determinado versus culturalmente adquirido, ou, nas palavras dele, “o velho debate entre os genes e a experiência vivida”. Varella é médico, como todos sabem, e, no artigo, fala dos avanços da neurogenética. “A partir dos anos 1990, com a explosão da neurogenética, aprendemos que as influências genéticas existem, são fundamentais, mas que os genes interagem com o ambiente de forma muito mais complexa, mutável e imprevisível do que poderia sonhar nossa vã filosofia de temos atrás”. Alguns parágrafos adiante: “As moléculas que constituem nosso DNA não traçam nosso destino, mas sob a influência dos estímulos ambientais sofrem arranjos e rearranjos que explicam a incrível diversidade humana”.
Achar o gene que é responsável por um comportamento x (ter habilidade para tocar um instrumento, por exemplo) já é complicado, porque os genes interagem entre si, de modo que não saibamos muito bem qual gene foi responsável por qual parte do resultado. Para piorar a história, eles – os genes – interagem com o meio ambiente (os costumes, a educação...) de várias maneiras. O exemplo que o autor dá são dois gêmeos idênticos: o mesmo acontecimento vivido pelos dois é apropriado por cada um de maneira diferente. “Os efeitos da mesma informação social sobre as funções cerebrais que sofrem influência dos genes envolvidos no comportamento diferem de um indivíduo para outro, como as impressões digitais”.
Drauzio termina dizendo que as recentes pesquisas em torno dessa questão vão permitir entender melhor distúrbios como depressão, autismo, esquizofrenia e outros. Eu vou terminar o post otimista com essas melhoras, mas perguntando pela poesia do mundo. Tudo no universo tem uma causa determinada e, com séculos de pesquisa, essas causas serão encontradas? Explicações simplistas como “Fulano é assim porque a família é assado” são questionáveis, claro – e até um pouco irritantes. Afinal, as pessoas são complexas demais para serem encerradas em proposições assim. Mas será que constatações como “Joana tem jeito para a música” ou até mesmo “Joana se apaixonou por Igor” serão mapeadas a ponto de sabermos quanto elas devem a cultura, quanto elas devem aos genes e a quais genes, e a qual modo de interação entre os genes e a cultura, e em que condições, e sob que circunstâncias...
Achar o gene que é responsável por um comportamento x (ter habilidade para tocar um instrumento, por exemplo) já é complicado, porque os genes interagem entre si, de modo que não saibamos muito bem qual gene foi responsável por qual parte do resultado. Para piorar a história, eles – os genes – interagem com o meio ambiente (os costumes, a educação...) de várias maneiras. O exemplo que o autor dá são dois gêmeos idênticos: o mesmo acontecimento vivido pelos dois é apropriado por cada um de maneira diferente. “Os efeitos da mesma informação social sobre as funções cerebrais que sofrem influência dos genes envolvidos no comportamento diferem de um indivíduo para outro, como as impressões digitais”.
Drauzio termina dizendo que as recentes pesquisas em torno dessa questão vão permitir entender melhor distúrbios como depressão, autismo, esquizofrenia e outros. Eu vou terminar o post otimista com essas melhoras, mas perguntando pela poesia do mundo. Tudo no universo tem uma causa determinada e, com séculos de pesquisa, essas causas serão encontradas? Explicações simplistas como “Fulano é assim porque a família é assado” são questionáveis, claro – e até um pouco irritantes. Afinal, as pessoas são complexas demais para serem encerradas em proposições assim. Mas será que constatações como “Joana tem jeito para a música” ou até mesmo “Joana se apaixonou por Igor” serão mapeadas a ponto de sabermos quanto elas devem a cultura, quanto elas devem aos genes e a quais genes, e a qual modo de interação entre os genes e a cultura, e em que condições, e sob que circunstâncias...
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
Para que servem os clássicos mesmo?
Não sei se você já ouviu essa pergunta, mas eu sim, e mais de uma vez. Estamos em 2009, vivendo as maravilhas e as bizarrices do nosso tempo. Para que ler um texto de antes de Cristo, ou de que maneira o argumento de um autor do século 17 vai acrescentar algo a debates contemporâneos?
Bom, um clássico não é clássico à toa. Vamos ignorar os motivos ligados à política e relações de poder - mesmo sem me apoiar em nenhuma pesquisa, algo me diz que os clássicos da literatura universal geralmente vêm de países ricos, e é mais provável que o livro de um antropólogo americano desencadeie uma série de debates na comunidade antropológica do que as considerações de um estudioso brasileiro... - para nos focar no conteúdo dos grandes clássicos, no que eles contribuem para a humanidade. Por que chegaram até aqui?
Porque não pararam lá, claro. "Lá" é o tempo em que eles foram escritos. Mesmo que não possam ser arrancados de sua época, não foram acorrentados a ela. Livres, os clássicos voaram por outros tempos e outras pessoas, servindo de referência e até mesmo inspiração para que elas pensem sobre sua própria época. Para citar o filósofo Merleau-Ponty (1908-1961), ao pensar, o clássico nos deu o que pensar.
Quando leio um clássico de Filosofia, não pretendo que ele dê conta do contexto no qual vivo, mas sim que areje minhas idéias e interpretações sobre meu tempo, e minha visão sobre os livros escritos na minha época...
Já quando leio um clássico de literatura - universal ou brasileira, porque, felizmente, temos ótimos clássicos -, confesso que não pretendo nada além de lê-lo. E admirá-lo em seu vôo pelo tempo...
P.S.: obrigado pelos comentários, mas fui obrigado a bloquea-los por causa de certos individuos!
Bom, um clássico não é clássico à toa. Vamos ignorar os motivos ligados à política e relações de poder - mesmo sem me apoiar em nenhuma pesquisa, algo me diz que os clássicos da literatura universal geralmente vêm de países ricos, e é mais provável que o livro de um antropólogo americano desencadeie uma série de debates na comunidade antropológica do que as considerações de um estudioso brasileiro... - para nos focar no conteúdo dos grandes clássicos, no que eles contribuem para a humanidade. Por que chegaram até aqui?
Porque não pararam lá, claro. "Lá" é o tempo em que eles foram escritos. Mesmo que não possam ser arrancados de sua época, não foram acorrentados a ela. Livres, os clássicos voaram por outros tempos e outras pessoas, servindo de referência e até mesmo inspiração para que elas pensem sobre sua própria época. Para citar o filósofo Merleau-Ponty (1908-1961), ao pensar, o clássico nos deu o que pensar.
Quando leio um clássico de Filosofia, não pretendo que ele dê conta do contexto no qual vivo, mas sim que areje minhas idéias e interpretações sobre meu tempo, e minha visão sobre os livros escritos na minha época...
Já quando leio um clássico de literatura - universal ou brasileira, porque, felizmente, temos ótimos clássicos -, confesso que não pretendo nada além de lê-lo. E admirá-lo em seu vôo pelo tempo...
P.S.: obrigado pelos comentários, mas fui obrigado a bloquea-los por causa de certos individuos!
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
Cultura justifica tudo?
Na China, os deficientes físicos encontram dificuldades para ser incluídos na sociedade por esbarrarem em "questões culturais". No Brasil, tudo bem os homens olharem de cima a baixo as mulheres que passam na rua e, eventualmente, lançarem uma cantadinha barata: faz parte da nossa "cultura". E como justificar a burca, o furo na orelha, a aliança no dedo esquerdo? Cultura, cultura, cultura.
Bom. O melhor jeito de começar este debate aqui no blog seria definindo o que, afinal de contas, entende-se por "cultura". Pretendo dar algumas definições de alguns autores interessantes. Mas não hoje: por hora, fique com a definição que você certamente tem de cultura, mesmo que não a coloque em palavras. Neste post, tudo o que farei é levantar justamente esta questão: até que ponto a cultura serve como explicação para os mais variados comportamentos existentes numa sociedade?
Para Adam Kuper, autor do ótimo livro "Cultura, a visão dos antropólogos" (Bauru, SP: EDUSC, 2002), todo cuidado é pouco na hora de eleger a cultura como justificativa para os mais diversos fatos. Ela explica alguma coisa, mas não tudo. E mais: ela, a cultura, também pode ser explicada. Uma sociedade X não tem determinada cultura por motivos arbitrários - e o interessante pode ser justamente investigar que fatores (econômicos, sociais, políticos) fizeram com que aqueles determinados aspectos culturais se desenvolveram naquele povo.
Kuper desconfia das razões de movimentos sociais pautados pelo nacionalismo, identidade étnica e religião - movimentos que invocam a tal da cultura para justificar a ação política. Independentemente de concordar com a posição dele ou não, vale a pena pensar a respeito. Aí vai um trecho interessante (e provocativo) do livro, na página 23:
"Akio Morita, um dos fundadores da Sony, rebate as alegações de que o Japão deveria liberalizar seus acordos de comércio para permitir uma maior competição de empresas estrangeiras. 'Reciprocidade', explica ele, 'significaria alterar as leis para aceitar sistemas estrangeiros que podem não ser adequados à nossa cultura'. (Felizmente, vender televisores Sony para os americanos e filmes hollywoodianos está perfeitamente de acordo com a cultura japonesa.)"
Bom. O melhor jeito de começar este debate aqui no blog seria definindo o que, afinal de contas, entende-se por "cultura". Pretendo dar algumas definições de alguns autores interessantes. Mas não hoje: por hora, fique com a definição que você certamente tem de cultura, mesmo que não a coloque em palavras. Neste post, tudo o que farei é levantar justamente esta questão: até que ponto a cultura serve como explicação para os mais variados comportamentos existentes numa sociedade?
Para Adam Kuper, autor do ótimo livro "Cultura, a visão dos antropólogos" (Bauru, SP: EDUSC, 2002), todo cuidado é pouco na hora de eleger a cultura como justificativa para os mais diversos fatos. Ela explica alguma coisa, mas não tudo. E mais: ela, a cultura, também pode ser explicada. Uma sociedade X não tem determinada cultura por motivos arbitrários - e o interessante pode ser justamente investigar que fatores (econômicos, sociais, políticos) fizeram com que aqueles determinados aspectos culturais se desenvolveram naquele povo.
Kuper desconfia das razões de movimentos sociais pautados pelo nacionalismo, identidade étnica e religião - movimentos que invocam a tal da cultura para justificar a ação política. Independentemente de concordar com a posição dele ou não, vale a pena pensar a respeito. Aí vai um trecho interessante (e provocativo) do livro, na página 23:
"Akio Morita, um dos fundadores da Sony, rebate as alegações de que o Japão deveria liberalizar seus acordos de comércio para permitir uma maior competição de empresas estrangeiras. 'Reciprocidade', explica ele, 'significaria alterar as leis para aceitar sistemas estrangeiros que podem não ser adequados à nossa cultura'. (Felizmente, vender televisores Sony para os americanos e filmes hollywoodianos está perfeitamente de acordo com a cultura japonesa.)"
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